Diabetes… por Rubem Paiva

Já li vários textos sobre DIABETES, mas um texto igual a esse do nosso ilustre RUBEM PAIVA….nunca vi igual!!!

Por isso mais uma vez vou compartilhar mais uma das suas pérolas!!!

Eu sou diabético. Doença danada igual ao cupim. O cupim entra na madeira e vai comendo por dentro, roendo, fazendo túneis, esburacando. Do lado de fora a gente não percebe. Aí chega um dia em que a madeira vira farelo.

Assim, é o danado do diabetes. Os sintomas quase não aparecem, do jeito mesmo que acontece com o cupim. Por não ter sintomas a gente acha que está tudo bem. Mas o cupim, escondido, está roendo.

Diabetes não tem cura. É doença crônica. Doença crônica é uma doença que requer cuidados até a morte. Mas não se apoquente. A vida também é doença crônica que exige cuidados até a nossa morte. Todo dia você tem de comer, beber, respirar…

O diabetes é uma perturbação no sistema de transporte do sangue. O sangue não consegue transportar o açúcar para seu destino, que são as células. O  trenzinho que transporta o açúcar para as células tem o nome de insulina. Açúcar é vida para elas. Como o trenzinho está emperrado, o açúcar fica girando em falso, sem chegar ao seu destino. É por isso que a taxa de glicemia, isso é, da quantidade de açúcar no sangue, sobe.

Se você se cuidar, os cupins não conseguirão fazer o seu trabalho. São três os cuidados básicos:

Tome os remédios que o médico manda. Não vá acreditar no que dizem os sabichões que palpitam que diabetes se cura com chá de não sei o quê. É mentira. Temos de nos valer dos remédios da farmácia.

É preciso manter o tráfego do açúcar desimpedido. Muitas das coisas que comemos, mesmo  que não sejam os deliciosos doces e bombons, se transformam em açúcar quando entram na circulação.. Batatas, pastéis, macarrão, mandioca, feijão, pão ( pão com manteiga é tão bom!), cerveja, uísque. Não é para você parar de comer estas delícias. É só comer menos e com cuidado. Se você comer em demasia, o tráfego fica entupido, a glicemia vai para as alturas. Sei que é difícil, mas aprenda a comer menos. Para ganhar força nesta disciplina terrível, lembre-se de Ghandi! Ele jejuava sempre. E teve boa saúde até o fim da vida. Comer pouco faz bem à saúde. Seu estômago, acostumado a comilanças, vai protestar e roncar. Quando isso acontecer, faça um lanchinho: um naco de queijo e uma fruta. Com o tempo você vai se acostumar. Emagreça. Gordura e diabetes andam de mãos dadas. Agora, se você quiser morrer antes da hora, continue a comer como sempre comeu. O diabetes adora os gulosos! Morrer não é nada. O terrível é quando é preciso amputar uma perna ou vem a cegueira.

Caminhar todo dia, se possível. Pelo menos 45 minutos. As caminhadas ajudam a diminuir o açúcar no sangue, além de dar uma sensação gostosa no corpo.

É uma bela manhã. Medi meu diabetes no aparelhinho. Não gostei do número que apareceu. Já tomei o meu remédio e agora saio para uma caminhada. A vida é boa! Longa vida é o que desejo para você e para mim!”

Rubem Alves

Um beijo enorme!

Laiara 🙂

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Transformação – A pipoca…

Nosso amigo Rubem Alves com mais uma de suas pérolas!! Achei fantástica essa releitura e por isso gostaria de dividir com vocês! Esse “cara” está me conquistando a cada dia… e como é bom viajar junto com ele!

A pipoca

Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de “culinária literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida…). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé…

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

“Morre e transforma-te!” — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á”.A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira…

“Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu”.

O texto acima foi extraído do jornal “Correio Popular”, de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.

beijos,

Laiara 🙂

Para refletir, desfrutar… e SORRIR!

       🙂   Achei que merecia escrever algo que não fosse ligado a Diabetes….e sim relacionado à vida de uma maneira geral…aos acontecimentos e como reagimos a eles. A sociedade em que vivemos nos ensina que a vida é feita APENAS de momentos bons, de sorrisos, de felicidade e de conquistas e estive pensando… que é engraçado que quando algo de ruim acontece nas nossas vidas achamos que nunca voltaremos ao “normal”… O tempo passa a passar tão devagar, o que nos encantava de repente não encanta mais, o que brilhava fica fosco, o que era flexivel fica rígido, o que era leve passa a ser pesado, o que era mole passa a ser duro…e por ai vai! Mas quando acontece uma coisa boa, quando conquistamos o que queríamos, quando tudo dá certo….é totalmente o OPOSTO…o tempo passa tão rápido, tudo nos encanta, tudo brilha, tudo é tão fácil, leve, mole…. Sentimos uma afinidade tão grande com o mundo, com as pessoas e o coração se enche de ESPERANÇA….

Mas se não sentíssemos o gosto do azedo, do amargo, jamais daríamos tanto valor ao doce… (esse DOCE persegue  os diabéticos..kkkkk)…às vezes e preciso experimentar todos os sabores….e é preciso estar no escuro para encontrarmos e desejarmos a luz!!!!Claro que não estou dizendo que é bom sofrer, chorar, ficar triste, mas é bom reconhecer os momentos simples, de felicidade, de conquista e jamais perder a ESPERANÇA de que DIAS MELHORES VIRÃO!!!!!

Segue abaixo uma música que acho linda de Marcelo Jeneci…

Felicidade

Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz.

Sem tirar o ar, sem se mexer, sem desejar como antes sempre quis.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.
Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz.
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais.

Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
Dançar na chuva quando a chuva vem.

Tem vez que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar.
Nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar.
Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser.
Quando chover, deixar molhar pra receber o sol quando voltar.

Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e depois dançar, na chuva quando a chuva vem.
Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.
Chorar, sorrir também e dançar.
Dançar na chuva quando a chuva vem.

Desejo a todos um EXCELENTE final de semana!!!

beijos,

Laiara 🙂